Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007

A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÓNIO COMO MOTOR DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

O desenvolvimento económico das autarquias nos últimos dezasseis anos, aliado às facilidades proporcionadas pelos programas comunitários, permitiu desenvolver e pôr em prática novos projectos culturais. Mas também as mudanças nacionais e internacionais operadas nos conceitos de património e museu originaram inúmeras transformações, assim como a percepção de uma ameaça da perca de identidade regional originada pela adesão à Comunidade Económica Europeia e pelo fenómeno da globalização e, previsivelmente, o desaparecimento do mundo rural com a crescente urbanização.
A crescente preocupação pela preservação do património originou um turismo específico que levou ao nascimento do termo turismo cultural. Termo muito conhecido actualmente e que é a chave para o desenvolvimento económico e social das chamadas áreas deprimidas, ou seja, cidades, vilas e aldeias que sofrem do grande mal provocado pela sociedade urbana e cosmopolita dos finais do século XX; o despovoamento e a consequente perda de identidade cultural.
O conceito de turismo cultural é relativamente vasto e inclui áreas muito diversas, tais como, arte, arqueologia, etnologia, património monumental e edificado, gastronomia, festas, usos e costumes, património natural e agrícola, cultura oral, etc. Áreas que têm sido desenvolvidas localmente pelo poder político na criação de novas ofertas de lazer, como parte integrante de uma política de desenvolvimento sustentado.
Ditas ofertas de lazer passam, na sua maioria, pela criação de pequenos núcleos museológicos e/ou museus, pela abertura de uma galeria de exposições temporárias e pela valorização do património arqueológico e etnográfico com o restauro e abertura ao público de sítios arqueológicos e unidades etnográficas, tais como, moinhos, lagares, forjas e olarias.
Na implementação de um turismo cultural as visitas a museus, exposições temporárias, sítios arqueológicos e unidades etnográficas devem ser um complemento ao contacto directo com o meio ambiente e áreas rurais e com a população local que é a principal detentora dos usos, costumes e tradições. Este desfrute e conhecimento converteu-se no objectivo mais apreciado pelo turista que pratica este turismo tão específico e que é atraído por formas de vida, infelizmente, já desaparecidas na maioria das nossas sociedades, que hoje passaram a ser contempladas com nostalgia e um certo romantismo fruto das carências que as caracterizam.
Os projectos de cariz cultural devem contemplar à priori vários aspectos de extrema importância, tais como a contratação de equipas especializadas e interdisciplinares, a investigação sobre a realidade e envolvente social, cultural e comunitária, a necessidade de articulação entre os diversos projectos, a definição de objectivos, os custos adicionais de manutenção e o orçamento anual necessário para o seu pleno funcionamento.
Aos aspectos explanados anteriormente deve-se juntar o mais importante neste tipo de projectos; o envolvimento directo da população local, detentora do saber fazer e principal gestora e fruidora do seu património cultural, para que o desenvolvimento que daí advir seja um desenvolvimento sustentável.
Envolver directamente a população local implica a educação da mesma, ou seja, o faze-la perceber que o conhecimento secular que detêm, o território que usufrui e trabalha, a casa que habita, os utensílios que utiliza, as datas que festeja são importantes e únicas. Por tudo isso deve sentir orgulho de saber o que sabe, viver onde vive, fazer o que faz e festejar o que festeja.
O conhecimento profundo das características sociais, culturais e comunitárias de uma dada região em conjunto com o apoio da população deve contribuir para a utilização e descoberta de novas soluções com as devidas diferenças locais evitando-se assim situações de repetição de soluções, as quais imprimem ao visitante uma sensação de dejá vu.
Os museus locais, integrados numa política de implementação e desenvolvimento do turismo cultural, devem revelar uma adequação funcional e espacial, em articulação com o território onde estão inseridos e os seus programas museológicos devem contemplar objectivos específicos de utilização e articulação com património envolvente. Porque um “museu local” é toda a sua envolvente cultural, social e comunitária e extravasa as portas do edifício para se revelar ao virar da esquina, atrás de cada postigo e porta entreaberta, nas velas do moinho, nas conversas de poial, nas pedras da calçada, nos sulcos abertos pelo arado, no deslizar calmo de um barco, no chiar das rodas de uma carroça e nas prosas das comadres.
Consequentemente, nos últimos tempos desenvolveu-se a nível social uma crescente preocupação pela preservação do nosso património cultural e a tentativa de colmatar as necessidades e deficiências locais neste campo converteu-se numa obrigação quotidiana e numa orientação política para os nossos autarcas.
Actualmente, as autarquias de interior apostam na conservação do seu património cultural para desenvolverem uma actividade turística de cariz mais cultural, em alternativa às inúmeras atracções do litoral. Porque, muitas vezes é o único recurso de que dispõem para sobreviver.
Uma das primeiras autarquias a orientar a sua actividade para a preservação do património cultural e que, actualmente, é um exemplo nacional e reconhecido internacionalmente como um caso modelar de desenvolvimento sustentável é a vila de Mértola.
Mértola é uma pequena vila do Baixo Alentejo outrora com uma importância crucial devido ao Guadiana e mais recentemente, entre 1857 e 1965, devido à mina de S. Domingos. Quando Cláudio Torres a visita em 1978 estava parada no tempo, era uma vila esquecida, miserável onde ninguém queria ficar e todos se iam embora.
Esta visita e as acções que desencadeou deram origem a um projecto ligado, exclusivamente e desde o início à arqueologia. Foi um projecto construído no terreno diariamente e com uma componente didáctica muito forte devido ao facto de que Cláudio Torres leccionava as aulas, na Universidade de Lisboa, sob a prática das escavações que durante as férias efectuava em Mértola, com equipas constituídas basicamente pelos seus alunos. Consequentemente, é um projecto que surge lentamente ao longo dos primeiros anos, que foi englobando outras áreas e componentes culturais que enriqueceram o próprio projecto.
De salientar que segundo palavras do próprio Cláudio Torres este foi desde o embrião um “projecto político, político … Puramente político que era encontrar na base um ponto de apoio para aquilo que já o Alentejo tinha nessa altura,…uma aprendizagem de uma certa dignidade, de um mundo camponês digno, … que tinha consciência da sua força…[1], influenciado pelo “percurso e formação humana, intelectual, ideológica e profissional[2] dos seus principais protagonistas, Serrão Martins e Cláudio Torres.
Com um poder local fortemente enraizado foram desenvolvidos projectos gerais de revitalização económica como forma de desenvolver a economia e redignificar a população local, com a certeza de que tinha que haver uma componente cultural muito forte.
O património não podia ser encarado apenas do ponto de vista científico, nem como mero recurso económico do qual interessava tirar o máximo proveito num curto espaço de tempo, mas sim como o trampolim que podia promover um desenvolvimento cultural e social, com reflexos a médio e longo prazo no tecido económico do concelho. Cláudio Torres afirma que “…ao revalorizá-lo (o património), nós estamos a tocar na alma de uma comunidade e estamos a tocar profundamente e de forma indelével,…, aquilo que no fim de contas as pessoas sentem que é seu, e é seu desde sempre porque o monumento é uma espécie de antepassado da comunidade, faz parte de todos os seus pais e avós e bisavós, faz parte da sua própria forma de ser, e isso é tão poderoso, tão forte, que quem mexer bem… nesse monumento, ganha essa comunidade, por um lado, e por outro é muitas vezes esse mesmo monumento que se for bem utilizado pela comunidade pode ser a sua principal arma de defesa contra a alienação…”[3]
Em simultâneo com as escavações arqueológicas foi efectuado um levantamento bibliográfico referente ao Castelo e ao concelho de Mértola e uma recolha de informações junto dos habitantes, mantendo-os informados das intenções e projectos que se iriam desenvolverem. Estas duas linhas de acção, desenvolvidas simultaneamente, complementavam-se e integravam-se num plano conjunto de viabilidade económica e social cujo pólo dinamizador era a autarquia, na pessoa do seu presidente Serrão Martins empenhado em arrancar a vila e o concelho de Mértola da “letargia de séculos[4] e em devolver-lhes a importância de outrora.
De acordo com o exposto, o projecto ideológico de Mértola integrava três linhas de acção:
Ø      Os materiais provenientes das escavações ficavam em Mértola;
Ø      As pessoas autóctones recebiam formação profissional nas áreas que se pretendiam desenvolver;
Ø      A divulgação seria feita em duas frentes, uma para o público em geral com a exposição local dos materiais exumados, outra para os especialistas com a divulgação e publicação dos resultados da investigação desenvolvida.
Para o desenvolvimento sistemático e contínuo do projecto foi criada a A.D.E.P.M., em Dezembro de 1980, com o objectivo de proceder à investigação, inventariação, protecção e divulgação do património do concelho, a qual integrava a secção C.A.M. . Com o progresso destas acções e da integração directa e indirecta dos munícipes no projecto, as áreas de trabalho foram-se avolumando o que originou uma fase de especialização, ao nível das áreas de intervenção e à predominância do campo geográfico, dentro do concelho de Mértola. O C.A.M. centrou a sua actividade na vila de Mértola, suporte da sua intervenção histórica, arqueológica e museográfica, e a A.D.P.M., com uma estratégia de intervenção fundamentada nas preocupações ambientais, culturais e de desenvolvimento económico e social do território, fixou a sua actividade na restante área do concelho.
O desenvolvimento das áreas de trabalho, a evolução do conceito de património e a divulgação[5] do trabalho que se estava a fazer em Mértola culminou na divisão do projecto em subprojectos, que criou novas dinâmicas. Como conceito pode dizer-se que o projecto é um projecto integrado, como posteriormente foi denominado “Projecto de Mértola” ou “Projecto Integrado de Mértola”, o mais interessante e o mais antigo ainda a evoluir e a desenvolver a sua actividade. Não existe em Portugal nenhum que se lhe compare, principalmente porque conta com 26 anos de existência e com uma continuidade muito forte de um dos protagonistas[6].
Porque não chega abrir um museu, recuperar um moinho, uma adega, um lagar de varas ou restaurar dois ou três sítios arqueológico de interesse indiscutível, se a população não for envolvida, se os projectos não se articularem e não tiverem viabilidade económica e social, se não se desenvolver uma política de divulgação, gestão e oferta turística comuns.
 
 
 
 BIBLIOGRAFIA
 
CADERNOS DE MUSEOLOGIA n.º1, Sobre o Conceito de Museologia Social, Centro de Estudos de Socio-museologia, Universidade Lusofona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa, 1993.
 
CADERNOS DE SOCIOMUSEOLOGIA n.º5, Museus e Acção Cultural, Centro de Estudos de Sociomuseologia, Universidade Lusofona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa, 1996.
 
CAMPILLO GARRIGÓS, Rosa, La Gestión y el Gestor del Património Cultural, Ed. KR, Múrcia, 1998.
 
DURAND, Karina R., “IX ICOFOM LAM: Museología e desarrollo sustentable. Provocative paper” in http://www.icom.org/icofom, 4 pp.
 
GÓMEZ, Javier Tusell (Coord.), Los Museos y la Conservación del Patrimonio, Actas del Encuentro «Los Museos y la Conservación del Patrimonio», Col. Debates sobre Arte, Encuentros sobre Patrimonio, Volumen XI, Fundación BBVA, A Machado Libros, Madrid, 2001.
 
MATOS, António Perestrelo de, “Museos municipales y colecciones etnográficas” in Separata da Revista de Museologia Museos y museologías en Portugal. Una ruta ibérica para el futuro, Edición Asociación Española de Museología, Madrid, 2000.
 
MOLARES, Federico Castro, GANT, Maria Luisa Bellido (Eds.), Patrimonio, Museos y Turismo Cultural: claves para la gestión de un nuevo concepto de ocio, Actas del curso celebrado en el marco de los Seminarios «Fons Mellaria 1997» (Fuente Obejuna, Córdoba, 21-25 de julio), Servicio de Publicaciones Universidad de Córdoba, Córdoba, 1998.
 
MOUTINHO, Mário, Museus e Sociedade. Reflexões sobre a função social do museu, Cadernos de Património n.º54, Museu Etnográfico de Monte Redondo, Monte Redondo, 1989.
 
REVÉZ, Jorge José Horta, Património e Desenvolvimento Local. Mértola – 20 anos de experiência, Tese de Licenciatura em Sociologia, Universidade de Évora, Évora, Junho de 1997.
 
TORRES, Cáudio, Mértola: O Castelo, Arqueologia e ... sonhos, Separata da revista “História e Sociedade”, nº 4/5, Junho, 1979.


[1] REVÉZ, Jorge José Horta, Património e Desenvolvimento Local. Mértola – 20 anos de experiência, Tese de Licenciatura em Sociologia, Universidade de Évora, Évora, Junho de 1997, p. 98.
[2] Idem, p. 39.
[3] Idem, pp. 99-100.
[4] TORRES, Cáudio, Mértola: O Castelo, Arqueologia e ... sonhos, Separata da revista “História e Sociedade”, nº 4/5, Junho, 1979, p. 4.
[5] Esta divulgação a nível nacional foi efectuada, na sua maioria, por antigos alunos de Cláudio Torres que entretanto estavam a trabalhar para diversos jornais e revistas na capital. A nível internacional toda a aventura política do Alentejo despertou um grande interesse na Europa e segundo Cláudio Torres “era a experiência mais bonita depois de Cuba”.
[6] De salientar que Serrão Martins morreu nos meados dos anos oitenta num trágico acidente de viação.
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Manuela da Palma Teixeira
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Publicado por Fernando Dias e Manuela Teixeira às 02:57
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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2006

Alcoutim Valoriza o seu Património Cultural

Alcoutim tem vindo a valorizar vários bens culturais nos últimos anos. Com a crescente tomada de consciência da importância e do valor dos bens e das actividades culturais, que conferem identidade e autenticidade a uma região ou país, o poder local tem apostado num modelo de desenvolvimento integrado e onde a preservação e valorização do seu património cultural desempenha um papel importante. A riqueza cultural de Alcoutim é muito diversificada e sendo marcada por tradições ancestrais conserva, ainda, actualmente grande originalidade.

O património arquitectónico, constituído por igrejas, castelo e arquitectura rural, juntamente com os inúmeros sítios arqueológicos que pontuam todo o território, com a cultura popular expressa nas actividades tradicionais, nas festas, e no artesanato, representam um bom cartão de visita para quem queira conhecer esta terra. O património natural com as belas paisagens, as plantas silvestres e a caça são igualmente um convite inrrecusável para qualquer turísta.

Os vários núcleos museológicos apresentam exposições temáticas sobre as actividades tradicionais que conservam conhecimentos ancestrais, como a tecelagem, as actividades rurais e a pesca, etc. Um núcleo dedicado à arqueologia, localizado no interior do castelo de Alcoutim, mostra o potêncial arqueológico existente e desvenda-nos muitos segredos guardados ao longo dos milénios. Na Ermida de Nossa Senhora da Conceição, recuperada para o efeito, encontra-se uma exposição de arte sacra representativa da devoção e do património artístico de Alcoutim. Um outro núcleo reaproveitou um edifício abandonado de uma antiga escola primária para promover a sua recuperação e zelar pela sua conservação, mostrando e guardando objectos e memórias dos tempos difíceis da alfabetização no tempo do Estado Novo. 

Edifícios como o Castelo de Alcoutim, Igreja da Miserícordia e Igreja de Vaqueiros têm sido recuperados e valorizados com a preocupação da sua salvaguarda como valor cultural para legar ao futuro.

A nível do património arqueológico já foram valorizados com estudos científicos e a implantação de medidas de conservação e restauro, bem como infra-estruturas e condições museológicas os menires do Lavajo e a Villa Romana do Montinho das Laranjeiras. 

A realização anual da feira de artesanato e de várias festas tradicionais trazem a Alcoutim milhares de visitantes que assim têm oportunidade de conhecer melhor as actividades culturais deste povo, quer seja nas actividades artesanais de transformação e produção dos produtos regionais, quer seja na forma de se divertirem e conviverem .

Alcoutim aposta assim na valorização do seu passado, no seu presente e no seu futuro, apoiada numa cultura tradicional sólida que lhe permite desenvolver-se de forma equilibrada e segura.

Por tudo isto deixo aqui o convite aos eventuais leitores, destas linhas, para que venham visitar Alcoutim.

Fernando Dias 

 

Publicado por Fernando Dias e Manuela Teixeira às 01:13
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